terça-feira, 7 de abril de 2009

O amor é importante, porra


Caminhando pela Av. Sumaré, encontrei o que é Verdade.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

SONHO

Acordar. Dormir. Acordar. Pegar as revistas que estão sob a cama. Cochilar: “...O ano de 1917, que marca o início da segunda revolução russa, testemunha o- co-me-ço- de- u-ma- ou-tra -his-tó-ri-a- de- ras-tros- pre-sen-tes...”. Cochilar.

Sozinho, num quarto de pensão, o homem dormia escondido, desviando-se de tudo e de todos, fazendo deste momento, uma hora e meia antes do encontro com a namorada, um refúgio das solicitações menores e maiores de sua vida. Ou melhor, das dos outros, pois sabia – e no fundo todos sabiam – que nunca participava de algo que precisasse botar o coração na massa. Coisas simples: passa em casa! Gostaria que conhecesse uma pessoa... Podemos ir juntos, o que acha? Flores? Eu gosto!... Estendendo uma lista de ausências comprida. Desse modo, de tanto insistir, o povo o deixou ser o que queria: um cara bacana, que todos desejavam o bem, mas demasiadamente sossegado. Vamos respeitá-lo, não?

Pedro chegou a dar aulas de História no público e no privado, iniciou um mestrado e para sua surpresa, nos últimos anos de estudo da graduação, inclinou-se à historiografia contemporânea a ponto de desejar estudar a vida íntima dos operários da Barra Funda do início do século passado, especificamente, seus horários de lazer, e, foi assim, na busca de delimitação de corpus, que conheceu a pensão de Dona Alice: janelas que entram sol. Paredes descascadas. Um vaso de gérbera logo à entrada. Cheiro de carne de panela.
Sentiu-se extremamente motivado a mudar-se para lá - Talvez, ficar durante o tempo da coleta seja interessante! Não encarou isso como uma excentricidade, refletiu sobre a distância da pensão às escolas, nas quais lecionava e se desanimou, pois teria que acordar muito cedo, mas então, ao olhar uma morena de cabelos compridos, olhos amendoados, usando um vestido florido verde atravessar a entrada da pensão, perguntando a Dona Alice se havia chegado alguma correspondência, subitamente, encorajou-se a mudar.

Aconteceu que com o tempo foi ficando cada vez mais difícil chegar às escolas no horário, o mestrado, no décimo sétimo mês, estava lhe exigindo demais – estava atrasado nas leituras, não encontrava tempo para a organização dos instrumentos de coleta, do mesmo modo que lhe faltava sujeitos que se dispusessem a ser entrevistados – e Melina, a morena que avistara no dia em que se decidiu mudar, estava lhe cobrando atenção devida, pois havia deixado o namorado do interior para ficar com ele. Assim, Pedro pensou novamente em mudar de casa para se dedicar aos estudos, mas após analisar o que lhe incomodava de fato, resolveu deixar o mestrado e as aulas, negociaria uma demissão para receber o seguro desemprego e resgataria seu fgts, enquanto procuraria um bico no próprio bairro, evitando as queixas de ausência de Melina, a mulher que tanto amava! E assim foi durante três meses, inclusive o casal chegou a planejar um casamento e foi nesse período que lhe pareceu imprudente assumir uma relação. Pedro começou a não voltar para casa depois do trabalho – era vendedor de livros em um sebo. Melina, cansada, retomou os contatos com os seus no interior e para lá voltou, casando-se com o seu ex-namorado.

“... É-a-da-ta-de-nas-ci-men-to-de-Bo-ris-Schnai-der-man. U-cra-ni-a-no-que-che-gou-ao-Bra-sil-aos-oi-to-a-nos-e-le-é...”. A revista antiga o aborreceu, queria ler ensaios sobre os autores russos, não o panorama da literatura atual, gostaria de ler as biografias, as quais contassem coisas banais da vida do artista, para que a genialidade pudesse visitá-lo naquela tardezinha e iluminasse o ordinário. Era um jeito de se aproximar do belo. Mas nada encontrou nesta leitura, e, como facilmente se entediava, jogou a revista de lado para levantar-se da cama, calçou os sapatos, desceu até o supermercado que ficava no mesmo prédio que a pensão, mas na parte térrea, a qual dava para calçada.

Acho que vou chegar mais cedo ao encontro... Marina nem é tão bonita assim, antes, seu charme compensava, mas de uns tempos pra cá, tá tão sem graça, as mesmas brincadeiras infantis, que por sua vez a torna ridícula, pois já tem 35 anos. Não combina e isso me faz lembrar o quanto ela é solitária, carente. O que posso fazer? Me agride! Será que ela me ama porque sou o que sou, ou porque não há mais nenhum outro que a deseje? Quando a conheci, estava com um carinha... Mas que tipo de cara era esse? Respeitável?
Acho que vou comprar chocolates... Estou com saudades de Marina.

Na gôndola de doces, enquanto escolhia o chocolate, sentiu algo tocar-lhe as pernas, pensou que fosse algum animal, cachorro, gato, ao olhar para baixo, viu que era uma criança, um belo garotinho de cabelos encaracolados, deveria ter uns seis anos de idade, seus olhos eram grandes e divertidos, certamente confundira Pedro com o seu pai, mas mesmo reconhecendo que aquele não o era, ali ficou, sorrindo, preso às pernas do estranho. Gosta de doces?

- Não acredito! Pedro?, disse um homem corpulento, barbudo, que aproximou-se da criança e a pegou no colo.
Pedro ficou calado por alguns segundos olhando o estranho, até que no mesmo momento que se lembrara dele – um colega de mestrado – retraiu-se com vergonha:
- Marcos?
- Puxa, rapaz! Quanto tempo! Você sumiu, disse que ia mudar de cidade, para o sul, ajudar o seu irmão, não é?
Com uma barra de chocolate nas mãos, Pedro evitava olhar para o colega, aliás, não se lembrava de ter dito aquilo, provavelmente inventara essa história para se livrar de cobranças.
- É. Voltei o ano passado...
- E o que tem feito?
- Feito? Estou pensando em retomar o mestrado – tossiu, para encobrir o nervosismo – e por enquanto, estou trabalhando em um sebo aqui perto. Eu e mais um amigo...
- Sócios?
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-Gostaria do endereço, preciso comprar uns clássicos e no sebo, geralmente, é mais em conta, apesar de que... Dependendo do sebo...
- E você, o que tem feito?
- Olha para isso! – e com o filho no colo, passou a mão na cabeça do menino . Cresceu, né? Dá um trabalho e gasta, nossa! Mas viemos ao mundo para dar o lugar para os nossos continuarem, não? Tenho dado aulas no pós, sou orientador, escrevo umas coisas aqui, outras ali, às vezes freelo em uma editora, dou assessoria a centros de documentação, enfim, tudo orbitando nas questões do trabalho...
................................
-Esse chocolate é pro seu filho?
- Não. Não tenho filhos.
- Casou?
- Não. Não.
- Namorando?
- Sempre.
- Ei, Pedrão! Bom, vou nessa que o filhote já está impaciente.
Abraçaram-se, Pedro despediu-se da criança com um beijo em sua mãozinha e como um búfalo que vai se tornando minúsculo no horizonte a distância de seu observador, Marcos foi sumindo da vista de Pedro, encaminhando-se ao caixa, brincando com o seu filho que estava choramingando.

De volta ao quarto, Pedro olhou para o relógio, faltavam cinquenta minutos, comeu o chocolate, deitou na cama e resolveu cochilar um pouco, daria tempo de chegar ao encontro, não tinha preocupação quanto a isso, pois Marina sempre chegava atrasada. Tirou os sapatos, puxou o lençol e deitou-se de bruço, estava se sentido estranho, o encontro com o amigo o pertubara, a sensação era de descrédito para com todos, começando com ele mesmo, depois com o amigo, com o filho do amigo, Marina, seu quarto – Jamais retomarei o mestrado, um porre! -, as revistas de literatura, o sebo, D. Alice, a História, o chocolate... E como uma névoa de inseticida, as sensações, os pensamentos e as lembranças, foram aglutinando-se e pulverizarando tudo que estava relacionado à sua vida. Encolheu-se, sentindo-se extremamente cansado, fechou os olhos, adormeceu e sonhou:

Uma mulher de cabelo comprido, grisalho, usando galochas imbricava-se entre as árvores do quintal. Era finalzinho de tarde, fazia frio mesmo havendo sol, que mais servia para desenhar um tapete de luz e sombra na terra, do que aquecer.
Dentro do quarto, ele calçava seus sapatos, admirou-se de já estar vestido, será que havia dormido de roupa? Olhou para escrivaninha ao lado, aproximou-se, havia livros de etnografia abertos, com anotações no canto da página, logo acima máscaras africanas, assim como fotos de crianças sobre bicicletas. Sentiu-se extremamente feliz, sabia que aquilo tudo era seu, olhou para trás, havia uma ampla cama de casal e sentiu falta de alguém, descobriu-se casado e amando, foi até o criado-mudo e pegou o porta-retrato, no qual havia uma foto preto e branca de um jovem casal, uma brisa gélida entrou pela janela, as cortinas esvoaçaram à semelhança de garças elegantes, na sacada, o barulho delicado de um mensageiro do vento.
A mulher da foto era linda, cabelos compridos, escuros, seu olhar era brilhante como de uma criança ansiosa a ganhar um presente, conheceram-se na casa de amigos em comum.
Ele acabara de mudar para aquele país, ainda estava aprendendo francês, ela,liberta, comunicativa - o que colaborou para que se apaixonasse imediatamente : Como fala francês bem! E riu de si mesmo, porque era óbvio que ela falava bem francês, era francesa – fez com que se aproximasse daquela jovem de cabelos longos, que usava um casaco xadrez , o qual provavelmente era de sua época de adolescência. Seu nome, Jeanne. Ela pintava, tirava fotos e, despretensiosamente, trabalhava em uma boulangeries, fazendo tortas.
Desceu as escadas que davam para o hall de entrada, estava com saudades dela, parecia que não a via há anos, atravessou a sala, acendeu algumas luminárias sem deixar de admirar a decoração aconchegante da casa até que, apertando os passos, desembocou no quintal, no qual havia um amplo jardim – amoras silvestres, uma densa grama escura, pequenos abacaxis plantados rente ao chão, arbustos, tomateiros, dentes - de –leão, alamandas – e trôpego, tirou de sua frente uma espreguiçadeira, que atrapalhava a passagem para ir ao encontro de sua esposa.
- Onde está?
Ela foi se aproximando silenciosa, com o rosto um pouco sujo e em suas mãos, segurava ervas-daninhas.
- Está chorando de novo? Não gosto de te ver assim, se continuar desse jeito, teremos que fazer alguma coisa...
- Ressucitar meu filho?, bravejou, jogando as plantas no chão.
Fazia um ano que haviam perdido um de seus filhos, o caçula, eram férias e o jovem nem precisou insistir muito para passar uma temporada com seus amigos na Espanha, partiu com apenas uma mochila nas costas. Três dias depois , o casal recebeu um telefonema, era uma senhora que com muita dificuldade falava francês, disse que o menino – le garçon – estava no hospital. Correram até lá e receberam a notícia do falecimento, a altura do rochedo até o mar era demasiada, a água recuou e a morte foi imediata.

- Adianta ficar assim? Seus outros filhos estão sentindo a sua falta, seus netos... Vamos fazer geléia agora?
Colocou os braços ao redor de seu pescoço, Jeanne chorava, limpou as suas lágrimas e beijou seu homem.
- Vamos deitar um pouco nas espreguiçadeiras? A noite adentrava, seria um refrigério para suas almas ficarem ali, juntos. Com duas tristezas no seu coração: a dele e da mulher que amava, ele fixou o olhar nas galochas de sua esposa e rapidamente muniu-se de toda coragem para enfrentar a vida: Como era um enorme prazer estar ao lado dela! Enquanto seus amigos escolheram doutoras, modistas, psicanalistas, ele havia encontrado um tesouro maior: uma pequena incansável que lia madrugada a fora Peter Pan para seus filhos, rindo com eles, divertindo-se, mas também a ponto de tirar férias da família, quando a impediam de sê-la, no início isso pareceu assustador, mas se era para ele continuar a ter aquele brilho nos olhos – e assim o era – deveria partir para voltar, e de fato ela ficava fora uma semana, pegava o barquinho e passava tardes na lagoa ali perto, onde tinham à margem uma pequena cabana, falavam por telefone e dali mesmo ela dava instruções de como arrumar os uniformes dos meninos todas às noites, para que eles ao levantarem já os vestissem.
- Às vezes , me culpo pela morte dele, acho que nunca deveria ter saído de perto, digo com relação às minhas férias – e quando pronunciou essa palavra, prolongou-a para tirar qualquer peso que pudesse massacrá-la.
- Nunca ouvi tanta besteira de uma vez só!
Beijaram-se. As luzes das lamparinas das salas foram apagadas, balbucio de crianças ecoavam dos cômodos da casa.

Pedro acordou sobressaltado, da rua vinha um barulho, sonolento, permaneceu deitado alguns segundos: Que sonho estranho! Confuso, levantou-se lentamente, foi até a janela, olhou para baixo: dois meninos andavam de bicicleta, voltou para cama, sentou-se à beira, ficou ali, coçando a cabeça, fisgando algumas imagens do sonho: a esposa, seu quarto, o filho que morrera. Quem seria ela? E aquele outro Pedro que desconhecia? O país distante, o corredor, a vida que era sua, desejada, com todas as suas pegadas, o porta-retrato... A mulher. Sentiu saudade daquilo que não teve, ou teve? Está por perto? Não havia ninguém por perto: as revistas espalhadas no chão, o encontro com Marina, que não amava e que infelizmente, ambos sabiam disso. Que horas são? Teria que sair de casa imediatamente, mas não havia forças para isso, a solidão o cercara, talvez ligasse para o irmão que morava no sul, olhou para o telefone, levantou e decidido foi atrás dos seus:

- Quem fala?
- Beto.
- Beto? Que voz de homem, rapaz!
- Quem é?
- Teu tio de São Paulo, Pedro, lembra?
- Tio? Claro! Quanto tempo? Como tá?
- Bem. Estou com saudade de vocês.
- Saudade? Não sabe da maior: vou prestar vestibular para História, acredita?
- História? Vai virar professor , é?
- Não sei ainda o que vou virar...
.....................................
- E o que tem feito?
- Caído no mar! Como sempre!
- Caído no mar?
- É pegando onda, essas coisas...
- Gosta do mar...
- Muito tio.
- Tome cuidado, não é perigoso?
- Claro que não!
- Sei...
.............................................
- O pai tá por ai?
- Acabou de sair da oficina, tá procurando funcionário, o que tínhamos saiu ontem...
- E como anda o resto?
- Minha mãe? Tá bem.
(riram ao mesmo tempo)
- Ligo amanhã para falar com teu pai.
- Ok.
- Boa sorte no vestibular. Parabéns pela escolha.
- Certo...

Desligou o telefone, como seria fácil ir ao encontro de Marina se não tivesse tido aquele sonho, como seria fácil de estar ao lado dela se não tivesse ouvido seu sobrinho falar que iria prestar História, se não soubesse o quanto aquele amava o mar e se não soubesse que houve e havia possibilidades invisíveis ao seu redor, mas que, por pura crueldade a si mesmo nunca as amou e ainda não as ama. A noite iniciava, Pedro colocou os sapatos e saiu do quarto ao encontro de sua namorada. Estou com saudades.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

DESENLACE

Ela acordou sufocada ao lado dele
Ele, liberto, ao lado dela
Ela tinha medo do pesadelo que aquilo podia se tornar
Ele, sabia: ela era um sonho realizado
Ela tinha medo de dormir e se perder
Ele, sabia que o melhor viria ao acordar
Ela estava preocupada, questionando-se
Ela, era a melhor reposta da vida, a ele
O prender das mãos a aprisionava
O abraço dela, o encorajava
Ela tinha medo de entregar-se
Ele, estava feliz em recebê-la
Ela, se fechava como ostra
Ele, a via como a própria pérola

Eles assim lado a lado
Ele e ela sem elos
Mas consigo

Ivete Irene

terça-feira, 17 de março de 2009

Flores no concreto

Caminhar pela Av. Sumaré tem suas surpresas: os lírios, as pessoas, os carros... Mesmo em meio ao concreto, à fumaça, a beleza resiste, convidando-nos.
Diariamente, leio o Sutra do Lótus, cultuo os espíritos dos meus ancestrais, para que possamos ter um caminho mais iluminado sob a proteção dos budhas.
Olhar as flores, me remete a origem do Zen Budismo - o qual pouco conheço. Mas a história é linda, vejamos:

Segundo a história tradicional, a primeira transmissão “mente a mente” (ou “coração a coração”) ocorreu na Índia, durante uma palestra de Buddha a uma grande assembléia na montanha Gridhrakuta, que reunia mais de mil e duzentos discípulos.
O Buddha Shakyamuni, com um sorriso inspirador em sua face, elevou o braço, segurando apenas uma flor de lótus dourada. Neste momento, houve um silêncio total.
Nenhum dos discípulos arriscou-se a dar nenhuma interpretação e, durante esse longo momento de impasse, seu discípulo Mahakashyapa (famoso por sua extrema sisudez) respondeu-lhe com outro sorriso misterioso. Ninguém da assembléia entendeu o sentido e significado do feito de Buddha e, mais tarde, ele anunciou que o mais profundo Dharma da verdade tinha sido transmitido ao discípulo Mahakashyapa.

Disponível: http://www.budismosimples.kit.net/ [capturado em 17 mar 2009].




quinta-feira, 12 de março de 2009

My pillow...

Deitamos um ao lado do outro.
Exaurimos a paciência em nos doar.
Ignoramos o chamado do dia
e quando chega o crepúsculo,
meio a vacilações de olhares,
a finitude eclipse segredos sobre a gente:
- Vista a roupa, mulher!
Não somos anjos. Nem deuses.
Apenas homem e mulher.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Domingo


“Aprendi com as primaveras a me deixar cortar para voltar inteira”.
Cecília Meireles


A corrida matinal a deixou mais entorpecida do que desperta. A vermelhidão das pontas dos seus dedos da mão indicava o retorno a sua casa, o frio não passara e mesmo o parque, nessas manhãs tão gélidas, ser um convite a contemplação do lago silencioso, dos cisnes engalfinhados uns aos outros e dos lírios à margem sempre dispostos às intempéries como moças desinibidas e que jocosas procuram atrair a atenção de homens tímidos, nada fez com que Marie ficasse um minuto a mais naquele lugar.
A proposta para esse domingo era inclusive tirar fotos da paisagem, até mesmo porque era uma tarefa a ser entregue na semana seguinte no seu curso de fotografia. Não me sinto à vontade, um chocolate, ver os e-mails, ligar para papai...
Há dias como este: a roda de nossa vida íntima começa a parar silenciosamente. Marie ainda era convidada a fazer escolhas, mas preferia ignorar, mesmo pressentindo que os cercos que construiu para si estavam ruindo. Caminhava pelas alamedas do parque aparentemente feliz, apegada a hábitos, a pretensões que não serviam a mais nada a não ser àquela parte sua que detesta a ponto de não olhá-la: a sua covardia de dar o que precisava, e, que por incrível que pareça, foi a que mais cultivou nos últimos vinte e cinco anos, fortalecendo-a como um bebê recém-nascido que necessita de todos os cuidados: os brônquios fracos foram reinstaurados nas duas semanas que ficou na estufa do berçário e isso equivale ao dia em que Marie resolveu reformar o banheiro de sua casa com o seu primeiro aumento de salário. Como não? Na vitrine, a bela pia de mármore a convidou a ingressar à serenidade, ao pacto comum dos que sabem que estão-indo-bem, enquanto o espelho jateado a la rococó ainda lhe restitui uma extravagância permitida.
À porta do apartamento, com o cheque em mãos, não olhou nos olhos do pedreiro que terminara a obra, e este ao entrar no elevador e ver assinatura daquela jovem decidida, mas um tanto solitária, desejou desposá-la com sentimentos cálidos de quem experencia o vazio de uma Nossa Senhora, a qual carregava uma imagem dentro de sua carteira. Sentiu-se também solitário, olhou para a câmera vigia e sorriu sem graça.
Na cozinha, logo após chegar da caminhada, preparou uma xícara com chocolate fumegante, que desenhava um torvelinho escuro que surgia e desaparecia, enquanto o tilintar discreto do metal à porcelana desafiava o silêncio maior daquela manhã.
Era junho e aos quarenta e dois anos Marie se encontrava sozinha no apartamento na região sul de São Paulo. Bem agasalhada, com um conjunto de abrigo esportivo, poderia passar tranquilamente por uma mulher de trinta e poucos anos, mesmo não sendo esse o objetivo de suas caminhadas e das suas incursões a cursos artísticos, pois, na verdade, fazia o que tinha que ser feito, afinal, era uma mulher que acordava todos os dias com a preocupação de constituir-se ativa, capaz de ao encontrar a secretária de seu consultório já saber as manchetes do principal jornal da cidade, uma vez que havia lido no carro a caminho do trabalho. Quem sabe à noite não encontraria Pedro?
Preciso ver os e-mails... Caminhou até um dos quartos, onde fizera de escritório.
Era tão preocupante deixar a irmã mais nova em outro país, trabalhando em uma estação de trem... Tudo bem que ela demonstrara uma maturidade impressionante, lembrando que até dois anos atrás, período em que resolveu deixar o Brasil, meses antes preferia às noites fora de casa, às relações conturbadas com um namorado de início de adolescência e à rebeldia a tudo que lhe ofereciam como O Caminho. Numa tarde, enquanto assistiam televisão Marie e seu pai, Camille prontificou-se como uma vigorosa planta que sobe o muro, e, ocupando seu o espaço disse: me inscrevi em um curso de alemão, vou para Berlim, tenho algumas economias, vou me fazer o bem.
Me fazer o bem?

Marie,
Não pude me conter, na semana passada, ao mexer no meu guarda-roupa encontrei um envelope com umas fotografias, e já no dia seguinte dei um jeito de escaneá-la. Olhe!: eu, você e o nosso vizinho de infância, lembra? Gustavo. Quantos anos você tinha? Dezenove? Creio que eu tinha sete. Que cabelo bizarro! Olha a calça! Olha onde essa cintura vai parar.

Saudades,
Abço pro papai,
Camille

Se quisesse, a roda de sua vida íntima ainda poderia movimentar-se naquela manhã, levando a lugares dentro de si que lhe indicassem a escolha de vestidos mais vibrantes, a viagens ao deserto – lugar que sempre chamara sua atenção, mas como era uma predileção, preferia passar desapercebido. Foi um dia, com Camille, que ao assistiram a National Geographic o deserto do Atacama lhe pareceu muito mais atraente do que a viagem anual que fazia com suas amigas de consultório -, também seria bem possível que ao encarar as prateleiras que trocara para colocar os seus livros, sentiria um desânimo maior. Fazia tempo que não namorava. Mas como quando encontramos um céu cheio de nuvens, mas que ainda é possível ver o azul tranqüilo por detrás delas, ainda era possível fazer escolhas naquele domingo.
O silêncio convidava. Uma sensação quente, acolhedora dentro da mulher surgiu brevemente, quando ao olhar para fotografia, Marie resolveu dar um zoom para observar minuciosamente os seus olhos. Tinha vinte anos, acabara de ingressar na faculdade de fisioterapia, a escolha foi feita a partir dos períodos em que, nos últimos anos que cuidou de sua mãe, que faleceu de uma doença degenerativa permeada por derrames, observara a fisioterapeuta dedicar-se ao processo de reabilitação – mesmo todos sabendo que dificilmente a matriarca sobreviveria. Mas havia milagres espalhados pela casa, mínimos, mas verdadeiros, era quando sua mãezinha conseguia voltar a pegar a colher e segurá-la por dois segundos, de modo que os olhos de Marie e da fisioterapeuta se tornavam mais brilhantes. À sua frente, frágil, via a Vida batalhando o quanto podia, o teor daquela dinâmica estava mais próximo da sinceridade e o empenho de formigas que nascem para trabalhar e cercam de cuidados sua rainha até o cessar de suas vidinhas, do que alguém que consegue repentinamente sair de uma cadeira de rodas e voltar a caminhar. Era isso que queria para si: potenciais vastos. Trabalharia com reabilitações e reintegrações de vidas.
Perscrutou seus olhos na fotografia, deu mais zoom, lapidou-os com suas lembranças, seus desânimos, esperanças e viu lá fundo do vazio um diamante. Uma imagem saltara a sua frente, seria um delírio?
Era domingo. Algumas famílias estavam postas à porta da igreja, um pai com seu filho comprava remédios na farmácia. Certos distintos preservavam seus anseios de coração em bancadas de bar, bebendo uma, certificando-se de que incorruptíveis viviam na terra mais pura do que a hipocrisia dos anúncios de propaganda e dos sorrisos dos homens bem vestidos. Um pássaro morria em seu ninho doente, sozinho, sua mãe voara para buscar alimento, seu corpo já diminuía a temperatura. Três mocinhas iniciavam-se com os rapazes numa casa de praia. Uma caneta caia no chão. O telefone tocava. A fotografia enviada informava: diamantes.
Afastou-se para trás, estava um pouco trêmula. O que vira? Não quis acreditar. Dando uma ordem de comando falou para si: vai, caminha, liga para o seu pai, ele depende de você, não há ninguém mais da sua família...
Os livros na prateleira: fisioterapia neurofuncional; princípios neurofisiológicos da facilitação neuromuscular proprioceptiva. E agora, era uma parte sua que precisava se reinserir. Bio-psico-social? Um nome eficiente, mas pouco proveitoso comparado com o delírio que acabara de ter. Não queria falar isso para ninguém. Era tão luminoso, belo... Havia um segredo nisso tudo que talvez não chegaria a um fim e então teve medo de acolhê-lo. A tristeza varou o seu peito, uma onda de descrédito a tomou por inteiro, não sabia o que lhe dar, descobriu infinitamente covarde.
Levantou-se foi até a sala, trêmula, pegou no telefone e ligou para o seu pai:
- Como está?
- Aqui bem, fui caminhar...
Não prosseguiu em suas palavras, seu pai falava do encontro na noite passada com seus amigos do baralho.
- Não sei ser o que sou...
– O que disse?
- Preciso cortar o cabelo...
– Mas hoje é domingo?
- É. Domingo. Passo aí mais tarde.
O apartamento era imenso. Nunca o habitara por completo e por mais que houvesse móveis, livros, mantas, objeto de decoração, fotografias na parede, nada parecia estar de acordo com o que nem sabia que desejava sempre. Resolveu sentar na poltrona, encolheu-se. Teve apenas um namorado, envolveu-se com dois pacientes seus e nunca sofrera por não ter filhos. Todas as escolhas foram estéreis? Não quis encarar a velha que teria que cuidar para o resto de sua vida, ela mesma. Poderia viajar para o Atacama. Poderia encontrar um namorado, era charmosa e cuidava do corpo, poderia adotar uma criança, visitar Camille... Ai, como é desesperador ser!
Sua mente agitada contrastava com a impavidez da decoração do seu apartamento. O gorjeio do pássaro cortando o céu, lhe remetia a sensação de estar se destoando de toda aquela maquinaria chamada Vida e o barulho do elevador subindo e descendo vindo do hall lhe arrancou o suspiro: Para quê?
Mas o delírio ainda estava ali, impregnado à sua alma, lhe convidando a desnovelá-lo e pobre mulher, presa na ambivalência de aceitar ou não o que poderia salvá-la, ignorou-o com a força de um búfalo - mais uma vez o bebê recém-nascido, sua covardia, fortaleceu os seus brônquios na estufa. Abafou essa experiência com exercícios de respiração durante umas duas horas nada fez com que despertasse, e mesmo frases como Mínimas mas verdadeiras e imagens cheias de luzes vagarem dentro dela, Marie optou em deixar o apartamento e visitar seu pai. O problema é que a vida não tem fim.
Amanhã, caminharia novamente e tudo voltaria no lugar certo...

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Your kiss is so sweet...

Ontem, enquanto assistia a televisão, vi João Gilberto Noll falar sobre o seu romance de estréia Acenos e Afagos, muito interessante, e como sempre, fiz o recorte daquilo que apenas me interessava e, nesse momento, meus ouvidos duplicaram quando disse: inadequação dos desejos perante ao coletivo, busca de identidade e paixões. Por que duplicaram?
Não sei minha mãe, meu pai, minhas irmãs, mas eu sempre fui do time que é avesso às convenções, aliás, eles nunca tiveram tempo para isso, assim como coragem para dizer muitas vezes: não estou satisfeito... Enfim, ganhei a fama na adolescência de transgressora e pra não falar coisas piores, inclusive, já me perdi por não saber guiar toda a complexidade que é enxergar a Vida como vejo, sinto - aliás, podem ter certeza de que não é muito diferente de como a veem e a encaram. Acontece que sou sincera e fiel a mim.
Na verdade, careço da habilidade de enxergar o que é certo - ou melhor, do que dizem o que é certo - como a única saída, não que eu não seja a favor da virtude, claro que sou, mas pra mim virtudes são sínteses, ou seja, para existir a tolerância é necessário algo que desafie a nossa paciência para negociarmos no momento que a pede se vale a pena ou não relevar amorosamente algo ou alguém. Assim, o que é certo advem de dentro para fora e não ao contrário. Pelo menos para mim sempre foi assim. Como diria Mefistófeles: "Eu sou a parte do todo que quer fazer o mal, mas cria o bem." Instituições morais nunca foram o meu forte.
Às vezes, penso que a saída deveria ser encorajarmos as pessoas a experimentar a Vida e tirar as suas próprias conclusões, não dizendo já de cara: isso é bom, isso é ruim, faça isso e estará no caminho certo... Entretanto, isso dá muito trabalho e medo, uma vez que não gostamos de saber que somos as únicas pessoas responsáveis pelas nossas próprias vidas, daí preferimos deixar que nos guiem, pois o processo de construir o seu próprio destino é algo que é necessário esforços e até mesmo paixão.
A inadequação dos desejos me parece um caminho de algo outro, o primeiro estágio de libertação. De tomada de consciência do diferente em si, de como a sua subjetividade sente o mundo e o ama. Hoje, lendo Proust, havia uma personagem que era sádica, e de repente o autor abre um clarão no meio da floresta a respeito das atitudes da senhorita Vinteuil:
"(...) Os sádicos da espécie da senhorita Vinteuil são uns seres puramente sentimentais, tão naturalmente virtuosos que até o prazer sensual lhes parece uma coisa má, um privilégio dos maus. E quando se permitem entregar-se um momento a ele, é na pele dos maus que procuram entrar e fazer com que entre o seu cúmplice, a fim de que possam ter por um instante a ilusão de se haverem evadido de sua alma escrupulosa e terna para o mundo inumano do prazer. E eu compreendia quanto ela o desejava, ao ver como lhe era impossível consegui-lo. No próprio momento em que desejava ser diferente do pai, o que ela me fazia lembrar eram as maneiras de pensar e de dizer do velho professor de piano. O que profanava, o que utilizava para os seus prazeres e que se interpunha entre esses prazeres e sua pessoa, impedindo-a de gozá-los diretamente, era, muito mais que a fotografia do pai, aquela parença que havia entre os dois, aqueles olhos azuis da mãe de Vinteuil, que os transmitira à filha como uma jóia de família, aqueles gestos de amabilidade que vinham colocar entre ela e o seu vício uma fraseologia e uma mentalidades inadequadas, as quais faziam com que considerasse a prática daquele vício como uma coisa não muito diversa dos inúmeros deveres de cortesia a que habitualmente se consagrava.
Não era o mal que lhe dava a idéia do prazer, que lhe parecia agradável; era o prazer que lhe parecia maligno. E como cada vez que se entregava ao prazer, vinha ele acompanhado daqueles maus pensamentos que durante o resto do tempo estavam ausentes de sua alma virtuosa, ela acabava por achar no prazer alguma coisa de diabólico, por identificá-lo com o Mal (...) Não teria acaso pensado que o mal fosse um estado tão raro, tão extraordinário, tão isolante e para onde era tão grato emigrar, se soubesse discernir em si mesma, como em todos os outros, essa indiferença pelos sofrimentos que nós mesmos causamos e que, por mais diversos nomes que lhe dêem, é a forma terrível e permanente da crueldade."

Não faça isso. Faça aquilo. Tem algo errado com o seu jeito de sentir prazer, de ser feliz... Cada qual tem o seu caminho de autodescoberta, mas o recado fica assim: há um diamante onde menos imaginamos, principalmente, quando não se tem coragem de encará-lo por pensar ser imoral.